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Folha da Tarde, um jornal que não se curvou ao terrorismo Houvesse pesquisado o Banco de Dados da Folha de S. Paulo e o Arquivo Público da Secretaria da Cultura do governo paulista, ao menos para fazer jus aos R$ 116.553,00 que ganhou em 1999 da FAPESP – Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado de S. Paulo para pesquisar, Beatriz Kushnir teria “descoberto” textos como os que se vêem abaixo. E talvez não escrevesse tanta besteira e desencadeasse tanto ódio contra a antiga Folha da Tarde para conseguir um doutorado em História, pela Unicamp, com base em mentiras e intrigas. As duas matérias reproduzidas a seguir bastam para espelhar a linha editorial e o ambiente de trabalho imperantes naquele jornal paulistano durante 15 anos, a partir de 1969. Um órgão da imprensa que não se curvou ao terrorismo dos chamados "anos de chumbo". E, 40 anos depois, paga o preço por não haver apoiado a substituição de um regime arbitrário, mas sem conotação ideológica, por uma ditadura comunista ainda mais feroz e empedernida. Um jornal que contribuiu, isto sim, para que hoje seus detratores possam usufruir da liberdade individual e da participação política por eles então negadas aos opositores em nome de um hipotético capitalismo de Estado. A FT distinguia perfeitamente o que significava "lutar contra uma ditadura" ou "lutar pela implantação de uma ditadura". Antônio Aggio Jr. |
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Pela independência dos povos
A educação deficiente e elitista, o pauperismo econômico e a humilhação social fazem do homem a besta-fera da liberdade e produzem superestruturas estatais, das quais afloram o absolutismo e o totalitarismo como expressões supremas. Toda ideologia dogmática é instrumento para a tomada do poder e a perpetuação dos mandatários. O indivíduo é a unidade de um sistema social. Portanto, se o poder político lhe vedar o acesso a quaisquer meios de aprimoramento físico e intelectual, estará construindo ou mantendo uma sociedade injusta, calcada na superioridade humana artificial, mediante a transformação de mandatários em mandantes e de cidadãos em servidores. Todo poder político objetiva, essencialmente, a preservação do Estado e do bem comum. Se for daquela forma exercido, resultará numa sociedade falsa, num sistema vazio, porque será soma de nulidades. E sempre justificará a existência do Estado como instituição oligárquica e discricionária, incapaz de promover as maiores aspirações de um povo: o bem-estar, a paz e a liberdade. Partindo dessas premissas, vê-se que não importa substituir homens por sistemas ou sistemas por homens, quando o objetivo real é o bem-estar, a paz e a liberdade do povo. Há que se modificar intrinsecamente o ser humano, o indivíduo-unidade-social, porque somente homens sadios, inteligentes, cultos e justos esvaziarão ordens opressoras e poderão impedir a tirania. Há que se apartar das sociedades as ideologias e os seus aparelhos, embriões de novos Estados como dogmas supremos e manifestações da ambição materialista humana. Há, finalmente, que se reconhecer no homem sua participação mística na gerência natural do Universo, dar-lhe todos os meios e oportunidades para que exerça em plenitude a missão divina de SER inteligente, depositário dos mais poderosos instrumentos gerados pelo Criador, para fazer feliz a si e aos seus semelhantes e enriquecer tudo aquilo que se entende por Criação. O curso da História pode ser mudado. Não é nela que reside a origem do homem, mas é nele que se originam os atos destinados a fazer História. Por isso, o amor ainda une os homens que os Estados separam. E também, por isso, a Independência somos todos nós. (A. A. Jr.)
Reproduções fotográficas das matérias
Folha da Tarde, 7/9/1980, 1.ª página
Folha da Tarde, 1/7/1981, seção Livros |
Livros - Torrieri Guimarães (*)
Quando vejo que a verdade, quase sempre, se oculta aos olhos do povo, para servir a interesses do momento, políticos ou econômicos – então me pergunto por que sou jornalista. Quando sinto que há barreiras entre o que se pensa e o que se pode dizer, entre a opinião pública que precisa ser orientada e aquela orientação que se inculca a essa mesma opinião – então me pergunto por que sou jornalista. Quando noto que tantos se valem desta cátedra e deste púlpito, que é a banca onde me assento todas as noites, longe da família e dos prazeres mais comezinhos, em seu próprio benefício ou no de grupos inteiramente alienados dos reais problemas e das urgentes necessidades do povo – então me pergunto por que sou jornalista. Quando sei que se manipulam os noticiários, dentro e fora do País, em favor de ideologias e de interesses materiais – então me pergunto por que sou jornalista. Mas quando, findo o trabalho, ergo os olhos cansados, ouvindo ainda os ecos dessa batalha diariamente renovada, que é a cata da notícia, e me dou conta de quanto esforço, dedicação, desprendimento, interesse humano se escondem por trás deste nosso trabalho rotineiro – então me orgulho de ser jornalista. Todas as noites, o mundo desfila diante dos nossos olhos, nestas salas cheias de gritos, risos, piadas, fumaça de cigarro e papéis amassados. Todas as noites a vida – com suas alegrias, dores, mazelas, erros e acertos – imprime aqui suas marcas profundas, em cada um de nós, que vamos envelhecendo enquanto tentamos captar cada uma de suas pulsações, nesta angústia de registrar os acontecimentos que compõem o curso da História. Noite após noite temos um encontro marcado com a notícia, razão de ser de nossa vida, a bem-amada, às vezes esquiva, outras vezes reticente, mas sempre aguardada com ansiedade. E lutamos todas as noites com ela, para torná-la mais atraente aos olhos do leitor, esse censor implacável que nos aguarda mal o dia rompe. E aqui estamos – os plumitivos e os veteranos, os que começam e os que vão cumprindo seu tempo – nesta fraternidade quase kafkiana, nas alegrias, nas angústias, nas apreensões, nas vitórias, sintonizando e transmitindo, coração alegre ou triste, o que o mundo nos manda dizer. E porque sei que o trabalho nos torna irmãos – nós que estamos levantando a bandeira de tantos outros anônimos heróis que tombaram – e partícipes da vida no mundo; e porque sei com quanto amor, dedicação, carinho se faz este jornal, dos contínuos aos diretores; e porque sei que enquanto houver um jornalista em sua banca, com liberdade para trabalhar, não se romperá essa corrente de fraternidade universal que a todos nos irmana – então compreendo porque continuo a ser jornalista. Com o mesmo respeito pela notícia de quando eu tinha quinze anos e iniciava vacilantes passos na carreira, que se alicerçou e ganhou forma no convívio desse pugilo de bons jornalistas da FOLHA DA TARDE. Que hoje é notícia também. Que a turma daqui transmite, com modéstia. Sentindo-se (como eu) intimamente feliz por partilhar a vitória de um jornal que tem, como força maior, seu respeito à notícia e ao leitor. E mais não digo, que a festa é de todos.
“Deocleciano Torrieri Guimarães nasceu em Olímpia, São Paulo, em 21 de julho de 1933. Escritor, jornalista, dicionarista, redator, editor e tradutor, fez seus primeiros estudos em cidades do interior paulista e, em 1948, transferiu-se para Catanduva/SP, onde criou um programa estudantil na emissora de rádio local, e onde começou a escrever, colaborando para o jornal A Cidade e para outros periódicos da região. Na capital paulista, concluiu o Curso Científico e em Mogi das Cruzes formou-se em Direito pela Universidade daquela cidade (UMG). Em 1964, tornou-se redator do jornal Folha de São Paulo, onde manteve uma coluna literária. Além disso, escreveu inúmeras obras didáticas, participou na editoria de enciclopédias e dicionários, e traduziu uma vasta obra, tanto de textos literários quanto jurídicos e técnicos. Concomitante à sua atividade como escritor e jornalista, começou a traduzir em meados dos anos 60, e hoje grande parte de suas traduções se encontra espalhada pelas estantes de inúmeras bibliotecas do pais, muitas das quais já sem registro preciso. Com o passar dos anos, muitas foram reeditadas e revistas pelo próprio tradutor, e dentre estas se destacam as versões das obras de Franz Kafka, reeditadas, grande parte, recentemente, e a ingente tradução da obra máxima de Boccaccio, Il Decamerone, vertida integralmente ao final da década de 60, e que desde então vem sendo constantemente reeditada, atestando sua imprescindibilidade, enquanto tradução, no contexto literário do país. Grande parte de suas traduções é precedida por um estudo crítico sobre a obra e a vida do autor. Em 1973, o jornalista recebeu o prêmio colunista Literário do Ano, concedido pela Câmara Brasileira do Livro como Colunista Literário do Ano. Escritor incansável, Torrieri Guimarães continua a publicar obras, sobretudo na área de Direito, além de traduções, em áreas de interesse diversas.”
N. da R. - Em 1973, Torrieri Guimarães já era o colunista literário da Folha da Tarde. |